O que fazer na casa, mês a mês, no Algarve?
Quase metade da chuva do ano no Algarve cai em outubro, novembro e dezembro: 221,5 mm de uma normal anual de 455,1 mm em Faro, nos valores do IPMA para 1991 a 2020. É esse número que organiza o calendário. Tudo o que tem de travar água fica pronto até ao fim de setembro, tudo o que precisa de tempo seco faz-se entre maio e agosto, e a processionária e os mosquitos seguem calendários próprios. A lista mês a mês abaixo é de 2026 e cada valor indica a fonte.
O calendário de uma casa no Algarve não é o de uma casa do norte do país. A chuva concentra-se em três meses, o verão é praticamente sem chuva, não gela, e há duas pragas com época própria. Tudo o que se segue é de 2026 e assenta num valor publicado.
Os dois números que organizam o ano
No aeroporto de Faro, as normais climatológicas do IPMA para 1991 a 2020 dão uma precipitação anual de 455,1 mm. Desses, 221,5 mm caem em outubro, novembro e dezembro: 48,7 por cento do ano em três meses. Junho, julho e agosto somam 9,0 mm, ou seja 2,0 por cento. E dos 15,6 dias por ano com 10 mm de chuva ou mais, 7,9 caem nesse último trimestre.
O ano parte-se ao meio. Há uma janela seca longa, de maio a setembro, em que o trabalho exterior é possível e em que qualquer infiltração é invisível. E há uma janela húmida curta em que todas as fragilidades de um telhado, de um terraço ou de uma caleira aparecem ao mesmo tempo.
Uma região de chuva, várias regiões de calor
A chuva quase não varia ao longo da costa. O calor varia muito. Nas mesmas normais do IPMA, Sagres regista em média 8,5 dias por ano com 30 graus ou mais, Faro 35,5 e Vila Real de Santo António 51,8. As noites tropicais, em que a mínima não desce dos 20 graus, vão de 5,8 por ano em Sagres a 44,7 em Faro.
É essa diferença que decide sombra, toldos, arrefecimento e o trabalho que uma piscina dá, e é por isso que um conselho escrito para uma ponta da região soa a falso na outra.
Janeiro
O trimestre húmido acabou de passar e dezembro foi o mês mais chuvoso do ano, com 90,0 mm. É agora que a humidade se vê. Também é agora que interessa saber que os Censos 2021 encontraram 38,1 por cento das residências habituais do Algarve sem qualquer sistema de aquecimento e apenas 5,1 por cento com aquecimento central, sendo o aparelho móvel a solução mais comum, com 32,1 por cento. Uma divisão fechada e sem aquecimento num mês húmido é a receita da condensação, e a solução é quase sempre ventilação e calor, não um produto.
Fazer: verificar manchas no topo das paredes e nos cantos das divisões viradas a norte. Usar os exaustores. Arejar casas que estiveram fechadas.
Fevereiro
A chuva alivia, 41,9 mm na normal, e começam as procissões. O ICNF descreve o quarto e o quinto instar da processionária a desenvolverem-se durante o inverno, seguidos de uma interrupção da alimentação de um a três dias antes de a colónia descer em fila e se enterrar 5 a 20 cm no solo. Quem tenha pinheiros ou cedros ao alcance de um cão deve olhar para as copas já.
Fazer: procurar os ninhos brancos de seda nas pontas dos ramos expostos ao sol. Se forem poucos, o ICNF prevê a destruição mecânica durante o dia, com as lagartas recolhidas, limita o método a infestações abaixo de 100 ninhos por hectare e exige óculos e proteção da cabeça e do pescoço a quem o faz.
Março
Chuva 46,8 mm, máxima média diária a subir para 18,9 graus. As procissões continuam. É o último mês tranquilo para trabalho exterior antes de a época encher.
Fazer: equipamento de piscina antes de a água aquecer, rega antes de fazer falta, e a reparação que ficou pendente desde o Natal. Marcar agora para abril e maio, e não em abril e maio.
Abril
Chuva 39,0 mm, e o último mês antes da estiagem. Daqui em diante é mais fácil abrir um telhado ou um terraço, porque o tempo ajuda e os profissionais ainda não estão no pico.
Fazer: começar a lista do exterior. Fissuras no reboco, superfície dos terraços, silicone à volta de janelas e portas, madeira pintada do lado do mar.
Maio
A chuva desce para 26,2 mm em 3,8 dias de chuva. A rede REVIVE de vigilância de vetores, do INSA, faz o trabalho de campo de maio a outubro, o período que descreve como o de maior atividade dos mosquitos. É por isso o mês em que a água parada conta. As recomendações da ARS Algarve são tanto de saúde como de manutenção: tapar reservatórios de água e fossas, manter as piscinas tratadas, manter as caleiras limpas e desobstruídas, virar ao contrário tudo o que acumule água, pôr areia fina nos pratos dos vasos ou retirá-los, mudar a água das jarras todas as semanas e manter a relva curta.
Fazer: manutenção do ar condicionado antes de fazer falta, e não no primeiro dia de calor, quando todos os aparelhos da região avariaram ao mesmo tempo.
Junho
Chuva 5,1 mm em 0,8 dias. A estiagem é real. Máxima média diária de 26,8 graus em Faro.
Fazer: pintura exterior, reboco, impermeabilização de terraços, reparação de telhados. O trabalho que tem de secar tem agora a janela mais larga do ano.
Julho
Chuva 0,9 mm em 0,2 dias, máxima média diária de 29,4 graus, e começam as noites tropicais. Faro tem em média 44,7 noites por ano acima dos 20 graus, e a maioria cai agora e em agosto.
Fazer: o mínimo de obra possível. Urgências, e pouco mais. Quanto à água, a Agência Portuguesa do Ambiente classifica a região hidrográfica das Ribeiras do Algarve com um índice de escassez de 66 por cento, no período de referência de 1989 a 2015, o segundo mais elevado do continente.
Agosto
Chuva 3,0 mm, mínima média diária de 19,9 graus, as noites mais quentes do ano. Os profissionais estão no limite e o acesso às casas é o pior do ano.
Fazer: guardar a lista em vez de fazer chamadas. Fotografar o que está mal no momento em que acontece e enviar tudo junto em setembro. Vários trabalhos pequenos numa só deslocação custam muito menos do que os mesmos trabalhos pedidos um a um.
Setembro
A chuva volta aos 21,5 mm e este é o mês que decide o ano. Tudo o que tem de travar água tem cerca de quatro semanas.
Fazer, por esta ordem: caleiras e tubos de queda desobstruídos, ralos de terraços e varandas desobstruídos, telha e rufos inspecionados, silicone à volta de claraboias e platibandas inspecionado, e qualquer fuga conhecida reparada em vez de vigiada. Além disso, o ICNF situa em setembro e outubro a janela eficaz do tratamento com Bacillus thuringiensis contra a processionária, enquanto o inseto ainda está no estado de ovo ou no primeiro a segundo instar. Um problema de pinheiros trata-se agora, não quando os ninhos já se veem.
Para a lista de pequenos trabalhos que se acumula ao longo de um verão, veja faz-tudo no Algarve.
Outubro
56,0 mm, e em média 2,0 dias com 10 mm ou mais. O trimestre húmido começou. O outro tratamento previsto pelo ICNF para a processionária, um regulador de crescimento aplicado de finais de outubro a inícios de novembro, fecha aqui, e continua a só ser eficaz nos primeiros instares.
Fazer: chaminé antes da primeira utilização. Os Censos 2021 encontraram 15,5 por cento das residências habituais do Algarve com lareira aberta ou recuperador de calor, entre 5,4 por cento em Vila Real de Santo António e 52,2 por cento em Monchique, o que faz disto um trabalho mais do interior e da serra do que do litoral. E a fossa esvazia-se melhor antes de o terreno encharcar.
Novembro
75,5 mm em 6,6 dias de chuva, dos quais 2,7 trazem 10 mm ou mais. Liga-se o aquecimento, e numa região onde 38,1 por cento das residências habituais não têm aquecimento fixo, isso costuma significar um aparelho móvel numa divisão fechada.
Fazer: agir sobre as primeiras manchas de humidade enquanto são pequenas. Registar onde a água se acumula no exterior depois da chuva forte, porque é esse o mapa que vai querer ter em setembro do ano seguinte.
Dezembro
90,0 mm, o mês mais chuvoso do ano, e em média 3,2 dias com 10 mm ou mais. Não gela, por isso não é um mês de proteger tubagem. É um mês de infiltrações.
Fazer: depois do primeiro temporal a sério, percorrer a casa e olhar para tetos, juntas de terraço e base das paredes. Uma fuga encontrada em dezembro e reparada em março é uma reparação. A mesma fuga deixada a encharcar uma parede durante dois invernos é uma obra.
Fontes deste calendário
- Precipitação, temperatura e número de dias: IPMA, Normais Climatológicas 1991-2020, estações de Faro (554), Sagres (533) e Vila Real de Santo António (866), ficha versão 1.0 de 2024.
- Ciclo e tratamento da processionária: ICNF, Processionária do Pinheiro: Diagnóstico e Meios de Controlo, 2015.
- Época dos mosquitos: INSA, rede REVIVE. Recomendações domésticas: ARS Algarve, saúde pública.
- Aquecimento, lareiras e alojamentos sazonais: INE, Censos 2021, quadros municipais.
- Limpeza de fossas: Município de Lagoa, Regulamento Municipal do Serviço de Saneamento de Águas Residuais Urbanas.
- Índice de escassez de água: Agência Portuguesa do Ambiente, Relatório do Estado do Ambiente, período de referência 1989-2015.
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